MIJOS

 

 

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Os Fluidos de Túlio Tavares

2015
Ricardo Ramalho

Todo artista pode fazer o que quiser. Pode ser modernista, pode ser acadêmico, pode andar pelado, especialmente se tiver um corpinho bonito. Pode jogar areia na Bienal (literalmente), pode até não fazer nada e continuar sendo artista. Que maravilha! É assim mesmo? Que liberdade é essa? Só se for “livre como um taxi”, nas palavras de Millor Fernandes. O artista na verdade tem é que andar na linha, tem que pintar em série. E ai dele se não pintar em série. Tem que redigir um currículo de acordo com o padrão internacional de currículos de artistas contemporâneos: nome, formação, exposições individuais, exposições coletivas, obras em acervos e publicações. Se o currículo não for feito assim estará condenado ao rótulo do amadorismo. E o portfólio? Se não demonstrar uma coerência férrea entre as obras, nada feito. É preciso omitir o experimentalismo. Onde estão as fichas técnicas? Embalou as obras com o material adequado? Sabe defender sua obra? Sabe argumentar e dar tapinhas nas costas? Ou será que o artista é romântico e inseguro? Ele dialoga com os lobbies, ou se revolta contra eles? É quixotesco? Curte curadores? Cuidado com a resposta, hein?
A arte sempre teve fórmulas, no modernismo quem não entrava naquela onda estava frito. Quem não era futurista tinha que morrer. Hoje em dia a arte é mais permissiva, pode quase tudo, o que ficou conservador mesmo são os escritórios dos artistas, suas rotinas. “Depois da arte, vem os negócios de arte” (Andy Warhol).
Tulio Tavares urina em garrafas de wisky, garrafas pet e outras garrafinhas de vários formatos, fecha bem para não vazar e monta uma espécie de coleção, que chama honestamente de “mijos”. Não são de qualquer pessoas, são mijos do artista. Qualquer semelhança com a “merda de artista” não é mera coincidência. Piero Manzoni not dead: o odiado artista italiano defecou em latinhas, aquele que parecia não levar a arte a sério, tem afinal um discípulo na virada do século. Afinal qual o problema de seguir as regras do jogo? O artista é livre ou não? O artista tem a obrigação de contribuir para o sistema de arte. Pode jogar tinta na tela de qualquer jeito. Pode cortar a tela com faca. Pode até ser naif. Pode não fazer nada. Sim, pode tudo isso. Desde que em série. O artista tem que fazer “nada” repetidas vezes. Uma só garrafa de mijo não tem cabimento. Vinte garrafas de mijo sim, a arte fica bem melhor. Coerência, visão de mercado, poesia provocativa, visão crítica. O que mais querem de um artista?
Toda arte insólita exige coragem, mantém vivo o glamour da arte, a inquietação, a agressividade, o charme dos artistas. É preciso propor uma instabilidade, como quem faz um teste de estresse, como quem busca os limites, para que tudo se estabilize e possa avançar. A estagnação é a tumba de qualquer profissão. O que teria levado Manzoni a enlatar sua evacuação? A pressão modernista? A competição com outros artistas? A necessidade de propor algo marcante? O medo da marginalidade? Todas estas motivações não morreram. A pressão do mercado é enorme hoje em dia, os artistas competem entre si como se vivessem num ninho de cobras. O receituário modernista foi substituído pelo secretariado contabil. Na arte contemporânea vence quem tiver o escritório mais organizado. Pouco importa o que você faça como arte, mais uma vez. O que importa é a embalagem, a caixa de transporte com espuma, o seguro, o currículo, o “per diem”, a imortalidade nas coleções, a qualidade do coquetel, o copo com gelo. Por falar nisso, um brinde ao artista.

Março 2015

Cidade privada

por Carolina Carvalho.

Garrafas que foram guardadas, expostas e fotogradas depois de enchidas com mijo. Mais um trabalho de forte apelo para nossas reflexões, produzido por Túlio Tavares, artista que tem se desenvolvido, entre  desenhos, pinturas e outras obras, durante os últimos 17 anos.

Em “Mijos”, a densidade do conteúdo condensado na performance ganha ainda a força das imagens produzidas pelo fotógrafo Marcos Villas Boas. Apesar de seu resultado plástico apresentar-se bem acabado como unidade, não há uma única resposta possível para todas as questões suscitadas pela obra e sua história.

A experiência de mijar em garrafas teve início num ato puramente prático. Proibido de deixar seu quarto durante a noite, o artista ainda adolescente viu-se constrangido a urinar em garrafas e latinhas. Os vasilhames eram deixados fora da janela, e colhidos congelados na manhã de inverno americana. Descobertos por um vizinho, garantiram-lhe permissão para usar o banheiro em todos os horários.

Escancarando

Pergunto quando começou a acumular as garrafas para este trabalho, o que suscede a atividade de simplesmente utilizá-las como simpático receptáculo. A reposta direta: “Quando comecei a considerar seu potencial para obra de arte”.

Claro. “Mijos” coloca-se como um prolongamento do conjunto da obra de Túlio Tavares. Em “O homem invisível”, performance realizada em 2000, já era escancarada sua necessidade de interação direta, corpórea, com o espaço público.

A força motriz continua sendo a satisfação de impulsos internos. Da função meramente fisiológica até sua busca por inserir-se na produção artística contemporânea de modo condizente com seus próprios credos, ícones e medos. Efetuar a transição de sua mitologia individual para a universal.

O consumo do mijo como obra de arte sacraliza o objeto e o questionamento que propõe, princípio básico perseguido pelo artista. “A história da arte é feita em tempo real, e é preciso escapar à pressão que a sociedade de controle exerce”, diz ele enquanto discutimos a responsabilidade social da obra.
Ícones urbanos

Ao ocupar o espaço público com seus próprios dejetos, expondo-os lado a lado com monumentos e outros marcos históricos, Tulio questiona nossa maneira de pensar a cidade e seus símbolos. Obras que são alvo do mijo que alivia os passantes agora recebem este mesmo mijo, porém higienicamente acondicionado e propositalmente exibido.

Teorizando o que chama de “morte da pintura”,  Ferreira Gullar, em “Teoria do Não-Objeto”, faz o seguinte comentário: “Não se trata mais de erguer um espaço metafórico num cantinho bem protegido do mundo, e sim de realizar a obra no espaço real mesmo e de emprestar a esse espaço, pela aparição da obra – objeto especial – uma significação e uma transcendência”.

A urina confinada em garrafas parece atingir um estado libertário ao alcançar o espaço público, atribuindo, simultaneamente, novos sentidos às obras cujo significado inicial já se perdeu para o cidadão comum. Repensar as relações da urbes, espaço físico e social,  com o homem-animal que vê os ícones da cidade como local ideal para uma mijadinha providencial, é base para reflexões mais profundas. Atribuir novos valores aos objetos de nosso cotidiano parece estar entre as pretenções do artista.

Buscando a confirmação de seu status de “arte”, o trabalho “Mijos” já foi exposto no Atelier Alexandre Menossi, na Funarte e na Casa das Rosas, em São Paulo.
Gilles Deleuze “ Post – scripitum sur les societes de controle”, in Pour – pur parlers, Paris, Les Editions de Minuit, 1990, pp.240-247

fotos Marcos Vilas Boas e Túlio Tavares

 

Cidade privada

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