ACMSTC

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ACMSTC (ARTE CONTEMPORÂNEA NO MOVIMENTO DOS SEM TETO DO CENTRO)

OU (ÁCIDO LICERGICO NO MOVIMENTO DOS SEM TETO DO CENTRO)

OCUPAÇÃO PRESTES MAIA

ARTE

IDEALIZAÇÃO TÚLIO TAVARES e FABIANE BORGES.

DEPOIS DO TEXTO E DO FILME HÁ VASTA DOCUMENTAÇÃO EM IMAGENS FOTOGRÁFICAS DOS TRABALHOS / AÇÕES QUE LÁ ACONTECERAM.

ACMSTC PARTE 1

FILME CATADORES DE HISTÓRIA

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ACMSTC PARTE 2

FILME CATADORES DE HISTÓRIA

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Ocupação de espaços, almas e sentidos
Fabiane Borges

Intervenção de 120 artistas transforma em arte viva a vida de 470 famílias de sem-teto na Ocupação Prestes Maia, em São Paulo.

Olhos:
1 “O encontro provocou notórias transformações nos hábitos dos moradores, que começaram a ‘passear’ pelos corredores e escadarias, subir ao terraço do último andar e ver São Paulo de cima – visão incrível sobre a cidade”

2 “Quatro andares das paredes que abrigavam tantos sem-tetos incendiaram no dia 7 de setembro de 2003, dois meses antes do nosso Encontro”

3 “Ser uma sem-teto deu sentido para minha vida. O momento de ocupar um prédio é o mais emocionante. Quando a gente entrou aqui tava tudo escuro, cheirando a esgoto, sem luz, sem água, cheio de entulho… aí é que vem mais força, todo mundo se ajudando, fico arrepiada só de lembrar!”

4 “Temos convites para participar das ocupações que se seguirão – adrenalina! Enfim, em vidência lhes secreto que esses movimentos não se extinguirão!”

Aos aliados,

No centro da cidade de São Paulo, em dezembro de 2003, houve um ritual de interferência e celebração à vida. Eu, Cassandra, fui incumbida de narrar-lhes o acontecimento. Peço que compreendam a maldição que sofro por ter repudiado o amor do deus da razão, que por despeito fez-me gaga e balbuciante, incapaz de expor logicamente as travessias que o destino me força perpetrar. Eu, mulher despedaçada, dou-lhes meu testemunho desarrazoado, misturado a vidências incongruentes, sobre o que se deu no Templo dos Sem-Teto. Adianto que foi um Encontro de Arte Contemporânea junto ao MSTC (Movimento dos Sem-Teto do Centro de São Paulo) na Ocupação Prestes Maia. Enquanto arrisco um modo de dar forma sígnica ao que se sucedeu, imagens vibrantes me ocupam, exigindo moradia nesse texto.

Quando vi o Templo pela primeira vez senti-me arrebatada para um outro Tempo. Entrei como que no negativo de uma foto antiga. O prédio Prestes Maia impressionou-me sobretudo por sua arquitetura e suas histórias. Soube que por muito tempo serviu como antiga tecelagem, onde mulheres nada Penélopes teciam e faziam greves; era uma fábrica de tecidos, de engrenagens lentas e repetitivas. Trinta e cinco andares de galpões abandonados durante vinte anos em função de dívidas, que agora são ocupados por dois mil sem-tetos. Estes criaram no interior desses espaços suas casas de tábuas de texturas distintas, lonas pretas, vidros achados nos lixões da cidade, pregos tortos e enferrujados. Verdadeiras instalações montadas a partir do que se encontra no caminho, no entulho e também nas Casas Bahia.

Ao impacto espaço-temporal que essas duas mil vidas reagi clamando pelas matilhas criativas escondidas nos edifícios cinzas, espalhados pelos corredores da megalópole. Eu, um corpo através do qual forças para além de mim emitiram sua vontade. E as matilhas, alertas como estavam, vieram de todos os lados, cada qual com seus coletivos e suas guarnições tecnológicas, performáticas, teatrais, musicais, corporais, sensoriais e mais.

Estranheza! Cento e vinte artistas cheios de instalações, objetos conceituais e símbolos, encontrando uma ocupação do Movimento dos Sem-Teto; 470 famílias subsistentes, em tensão na luta por moradia, cujo cotidiano é feito de reuniões, assembléias, votações, passeatas e negociações ininterruptas, com as várias instâncias político-administrativas do país. Como poderia não ser estranho? De que forma mundos tão diferentes poderiam se encontrar? Que conexões possíveis teriam movimentos tão alheios um ao outro? Essas são questões que perduraram durante todo o tempo do Encontro e ainda persistem.
Eu e meu amigo Don Quixote das artes, conhecido também como Túlio Tavares, fomos impelidos a coordenar esse “Estranho Encontro”. Coordenação experimental, sem controle de coisa alguma, em tudo esquizofrênica, sem nenhum tipo de financiamento, cuja existência sustentou-se naquelas três semanas de encontro. Nossa única proposta aos artistas foi que entrassem em contato com o espaço, com as pessoas, com seus modos de vida e que, a partir desse encontro, se pudessem, se pusessem em obra.

No decorrer do processo de “Ocupação na Ocupação”, o prédio, os andares, os moradores e os artistas foram gradualmente sendo ocupados. A palavra ocupação foi se tornando comum e plena de significados, instalando-se em nossos pensamentos feito a lacraia que se instalou na cabeça de um dos personagens de Alan Poe, que ao atravessar seu crânio, de uma orelha à outra, expeliu centenas de larvas de cem pés. Quantas faíscas loucas não suscitariam essas forçadas sinapses centopéicas? Às vezes acho que esse Encontro foi um ritual de fogo: o encontro de forças de mundos distantes, incendiando o cotidiano de mais de duas mil pessoas. O fogo para esta ocupação é signo especial, que lhes arde inescrupulosamente, e queima quem quer que se aproxime com a veemência do seu terror. Quatro andares das paredes que abrigavam tantos sem-tetos incendiaram no dia 7 de setembro de 2003, dois meses antes do nosso Encontro. Diante dessa fatalidade tiveram que reinventar espaços, agregar famílias, criar mutirões de colaboração, e produzir novos agrupamentos dentro do prédio. Essas chamas se mantêm acesas e inflamam a potência dessa singular coletividade. Pensar o Encontro como um ritual de fogo está para além de uma analogia propícia, está mais como competência de perceber os campos de forças que se estabelecem quando se deseja realizar uma ação.

Transpassada por todas essas forças, fui sendo transfigurada em minha própria obra. Entreguei-me a devires que me atravessaram durante o tempo de “Ocupação na Ocupação”. Sentia alegria ontológica por estar conectada a um movimento social feito por uma grande maioria de mulheres, com destino tão diferente do que coube às minhas derrotadas companheiras troianas, que não tiveram forças para reconstruir a cidade incendiada. Às vezes me sentia como mistura de Kali e Morigan – que entre outras coisas, simbolizam a destruição nas mitologias indiana e celta –; em outros momentos me sentia imensa como Iemanjá, então vestia branco e, cheia de lenços pelo corpo, devaneava águas, seios fartos, ondas e repuxos; às vezes estava triste, só triste, e me vestia de dor; e ainda: guerreira, aludida as grandes matilhas femininas das sem-teto e a Petensiléia – a cadela de guerra!

Superar o pânico

O encontro dos moradores com arte e artistas provocou notórias transformações em seus hábitos em relação ao prédio. As pessoas começaram a “passear” pelos corredores e escadarias, subir ao terraço do último andar e ver São Paulo de cima – visão incrível sobre a cidade – coisa que não era conhecida pela maioria dos que viviam ali, assim como não era comum subir aos andares dos escombros do incêndio. Tinha-se pânico desses andares, evidenciado nas falas infantis repletas de assombração e perigo: “Tem um homem que aparece lá e mata as crianças. Lá, as máquinas do antigo elevador funcionam sozinhas, a alma da menina que morreu queimada fica chorando de noite”. Eram andares proibidos que aos poucos foram sendo ocupados com pinturas nas paredes, instalações e oficinas, que serviram como dispositivos de retorno.

As crianças se ofereciam como que em Sacrifício Sagrado à ocupação de criação. Nos guiavam pelo prédio, levavam-nos a esconderijos secretos, ao “andar das vovós”, às mães, aos tios, enquanto aprendiam a mexer em nossas câmeras de vídeo, máquinas fotográficas, construir monóculos, esculpir nas paredes, fazer malabaris, tocar tambor em latões, cantar. Essas pequenas vidas crescidas dentro de ocupações, ajuntamentos públicos e expulsões de prédios pareciam ter pressa de aprender tudo e exigiam habitar o mundo da arte.

As matilhas criativas foram inventando estratégias de encontro dentro da ocupação. Uma delas – Coletivo Bijari – enviou cartas para vários moradores, deu o endereço duma casa lá dentro e aguardou respostas. Uma delas foi marcante, a moradora escreveu: “Vêm nos sugar, tiram-nos tudo o que temos, bebem nosso sangue, como se não soubéssemos”. Carta dispositivo de angustiada reflexão. Fizemos esse encontro por que somos sanguessugas? Queremos tomar dos Sem Teto sua força? É sangue o que queremos? Sim, me pareceu dizer a voz de Cida, moradora do 19º andar quando falou: “Ser uma sem-teto deu sentido para minha vida. O momento de ocupar um prédio é o mais emocionante. Meu coração batia forte, mas tão forte! Quando a gente entrou aqui tava tudo escuro, cheirando a esgoto, sem luz, sem água, cheio de entulho… aí é que vem mais força, todo mundo se ajudando, se organizando, fico arrepiada só de lembrar!” Estava claro que se tratava de sangue. Foi um encontro de transfusão de sangue! Transfusão de potência! Tanto que num dia apareceu uma faixa na parede, que dizia em letras garrafais: “VISTA SUAS VEIAS”.

Assim como essa faixa, muitas outras leituras foram sendo colocadas pelos corredores, pelas casas das pessoas, sem que ninguém, ou quase ninguém, assinasse sua autoria. Não tinha hora para as coisas acontecerem. Elas apareciam dependendo das linhas que iam sendo tramadas naquela antiga tecelagem. Evento sem hora marcada, nem assinatura das obras.

O mais difícil foi lidar com os jornais. Não tínhamos assessoria de imprensa, mesmo assim apareceram jornalistas de todos os grandes jornais da cidade de São Paulo nos pedindo explicações concretas. Eu e Don Quixote os levávamos dentro das casas para conhecerem as pessoas e tentar com que compreendessem que não se tratava de exposição em galeria exótica. Não era exibição, era transfusão! Mas a imprensa não entende nada de transfusão. E as notícias que saíram nos jornais de forma alguma traduziram o que se passava. Dessas trocas sanguíneas que falávamos, uma moradora foi exemplar – Célia Moreira – de casa toda feita de bambu e ervas de cheiros fortes. Em nosso primeiro encontro nos serviu café e leu uma de suas poesias: “Versos de Ironia”. No segundo encontro, com Don Quixote das Artes, ela falou que era estilista e sua moda significava a união do absurdo e do ridículo. Mostrou suas roupas feitas de garrafas plásticas coloridas, sacos de batatas, sementes e pastos encontrados pela Terra. Não houve dúvida, faríamos um desfile! Célia convidou a mim e várias sem-teto para vestir suas roupas. Interrompemos a reunião do último encontro dos artistas no prédio, com batidas de tambor e vestimentas “ridículas e absurdas” pelo corpo. Célia radiante dizia: “Estou viva! Estou viva! Eu sou gente!” Suas roupas, nunca vistas, agora ganhavam forma em corpos de várias idades.

A maioria dos participantes do Encontro não chegavam aos 30 anos. Por isso, me pergunto se o que aconteceu na Ocupação Prestes Maia foi um ritual de encontro dessa nova geração, uma espécie de deflagração do zeitgeist contemporâneo!? Há algum tempo esses artistas têm experimentado novos modos de produzir suas obras. O acontecimento que se deu na Ocupação Prestes Maia me parece ter sido fundamental para o fortalecimento dessas ações artísticos urbanas em São Paulo.
Mas houve também momentos de resistência à nossa ocupação artística, que indicaram que os preconceitos raciais, religiosos e de classes sociais se faziam atuantes: alguns sem-teto interpretaram nossa chegada como entretenimento de gente rica; uns outros se negaram a fazer parte do processo, fechando suas portas; alguns crentes se chocavam com nosso comportamento irreverente, alguns artistas não conseguiam se envolver com os moradores. Era a travessia de uma maioria de estrangeiros brancos, universitários, intelectualizados, tecnologizados a uma zona de conflito ocupada por uma maioria negra, empobrecida, com poucos recursos de educação institucional, num prédio desprovido de telefones e computadores, que se ilumina precariamente por gambiarras. Negar essas diferenças seria fechar os olhos para o abismo de classes e de raça existentes nesse país. Para mim, esses confrontos fizeram muito sentido. Intuí que eram necessários para evidenciar a radicalidade desse projeto, para possibilitar experiências de riscos subjetivos, para propor modos de criação que surjam do contato com um mundo povoado de vidas.

Para terminar, confesso-lhes que ainda estou atordoada, não sei bem o que aconteceu. Escreveria muitas páginas mais, se assim pudesse, para dar-lhes idéia do acontecimento. Posso dizer-lhes que tudo segue vibrando. Artistas continuam indo ao prédio; vários deles se juntam semanalmente para trocar suas experiências; ações coletivas estão sendo pensadas para 2004. A Ocupação ganhou posse do edifício, as pessoas vão ser encaminhadas provisoriamente para outros prédios, os moradores dessa ocupação vão se separar e a última festa que os ajuntou, foi a festa do nosso Encontro. Temos convites para participar das Ocupações que se seguirão – adrenalina! Enfim, em vidência lhes secreto que esses movimentos não se extinguirão! Estamos com sede da cidade, com desejo de ocupá-la, instalar-nos pelos espaços públicos. É a forma que encontramos de interferir e celebrar a vida.

Sua tresloucada, Cassandra.

Túlio Tavares

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Mila Goudet

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Flávia Vivacqua

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Mauro de Souza

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Mariana Cavalcante

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Reunião dos artistas com os moradores

Thiago Judas

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André Bueno

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Sofia Pazzanine

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Forró com DrumBass, som Peetssa

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Rodrigo Barbosa

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Fabine Borges

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Eduardo Verderame

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Cristiane Moraes

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Rodrigo Araújo

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autores ?

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autores ?

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Celso Gitay

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Paulo Zeminian

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Gupo Laranjas

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9 respostas para “ACMSTC”

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