Túlio Tavares

Por carolina carvalho

Cidade privada

Garrafas que foram guardadas, expostas e fotogradas depois de enchidas com mijo. Mais um trabalho de forte apelo para nossas reflexões, produzido por Túlio Tavares, artista que tem se desenvolvido, entre  desenhos, pinturas e outras obras, durante os últimos 17 anos.

Em “Mijos”, a densidade do conteúdo condensado na performance ganha ainda a força das imagens produzidas pelo fotógrafo Marcos Villas Boas. Apesar de seu resultado plástico apresentar-se bem acabado como unidade, não há uma única resposta possível para todas as questões suscitadas pela obra e sua história.

A experiência de mijar em garrafas teve início num ato puramente prático. Proibido de deixar seu quarto durante a noite, o artista ainda adolescente viu-se constrangido a urinar em garrafas e latinhas. Os vasilhames eram deixados fora da janela, e colhidos congelados na manhã de inverno americana. Descobertos por um vizinho, garantiram-lhe permissão para usar o banheiro em todos os horários.

Escancarando

Pergunto quando começou a acumular as garrafas para este trabalho, o que suscede a atividade de simplesmente utilizá-las como simpático receptáculo. A reposta direta: “Quando comecei a considerar seu potencial para obra de arte”.

Claro. “Mijos” coloca-se como um prolongamento do conjunto da obra de Túlio Tavares. Em “O homem invisível”, performance realizada em 2000, já era escancarada sua necessidade de interação direta, corpórea, com o espaço público.

A força motriz continua sendo a satisfação de impulsos internos. Da função meramente fisiológica até sua busca por inserir-se na produção artística contemporânea de modo condizente com seus próprios credos, ícones e medos. Efetuar a transição de sua mitologia individual para a universal.

O consumo do mijo como obra de arte sacraliza o objeto e o questionamento que propõe, princípio básico perseguido pelo artista. “A história da arte é feita em tempo real, e é preciso escapar à pressão que a sociedade de controle exerce”, diz ele enquanto discutimos a responsabilidade social da obra.
Ícones urbanos

Ao ocupar o espaço público com seus próprios dejetos, expondo-os lado a lado com monumentos e outros marcos históricos, Tulio questiona nossa maneira de pensar a cidade e seus símbolos. Obras que são alvo do mijo que alivia os passantes agora recebem este mesmo mijo, porém higienicamente acondicionado e propositalmente exibido.

Teorizando o que chama de “morte da pintura”,  Ferreira Gullar, em “Teoria do Não-Objeto”, faz o seguinte comentário: “Não se trata mais de erguer um espaço metafórico num cantinho bem protegido do mundo, e sim de realizar a obra no espaço real mesmo e de emprestar a esse espaço, pela aparição da obra – objeto especial – uma significação e uma transcendência”.

A urina confinada em garrafas parece atingir um estado libertário ao alcançar o espaço público, atribuindo, simultaneamente, novos sentidos às obras cujo significado inicial já se perdeu para o cidadão comum. Repensar as relações da urbes, espaço físico e social,  com o homem-animal que vê os ícones da cidade como local ideal para uma mijadinha providencial, é base para reflexões mais profundas. Atribuir novos valores aos objetos de nosso cotidiano parece estar entre as pretenções do artista.

Buscando a confirmação de seu status de “arte”, o trabalho “Mijos” já foi exposto no Atelier Alexandre Menossi, na Funarte e na Casa das Rosas, em São Paulo.
Gilles Deleuze “ Post – scripitum sur les societes de controle”, in Pour – pur parlers, Paris, Les Editions de Minuit, 1990, pp.240-247

Cidade privada

1 Comentário »

  1. […] críticos sobre o trabalho Ricardo Basbaum Fabiane Borges Rafael Adaime Gavin Adans Carolina Carvalho Júlia Tavares Ana Júlia Cabral Ricardo Ramalho Vários autores sobre o Menossão Ações de […]

    Pingback por Túlio Tavares « Túlio Tavares — abril 14, 2010 @ 1:11 pm


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