Túlio Tavares

EXPOSIÇÃO A ROUPA NOVA DO REI

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Nova Pasta e ZOX

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por ricardo basbaum
Muito interessante as falas ate agora. Queria agradecer o Túlio pelo convite, por este deslocamento desde o Rio ate aqui, foi um pouco tumultuado por causa desta chuva e enfim, eu acho que eu posso contribuir aqui para conversa.
Eu conheço o Túlio a algum tempo, agora este trabalho tive um contato só agora, esse projeto aqui no Sesc “O Rei Esta Nu”. Como eu conheço o Túlio a algum tempo e de certa maneira minha chegada até o trabalho foi permeada pelo que eu já conheço do trabalho dele, com a exposição eu tive um contato muito imediato, agora, realmente a duas horas atrás, fora algumas imagens que eu tinha recebido pela internet, eu tinha uma idéia do que seria, mas não tinha idéia do espaço físico, do conjunto todo e tal, então desde que eu cheguei aqui no Sesc, as sete da noite, eu fui tentando me aproximar, fiz algumas notas e tal e fico contente de ser o último, assim posso me apropriar das falas anteriores por semelhança ou diferença. O que realmente me chamou a atenção no projeto todo foi este furo no rei, esse buraco, eu depois de ficar indo e voltando ali pela calçada, tentando procurar algum ponto de contato com o trabalho, fui achando alguns, acabei me fixando neste furo, neste buraco e fiquei pensando porque todo este problema do conto, eu não conheço o conto original, eu só li este parágrafo que está ali na galeria, todo mundo conhece esta estória de ouvi falar, não li o conto original e porque disfarçar, porque este problema todo com este buraco, quer dizer, porque têm que ir alguém, aqueles possíveis artistas, aqueles tecelões, que trabalham com esta ilusão, seduzem o poder, o lugar do poder com algum tipo de ilusionismo e o lugar do poder esta interessadíssimo neste ilusionismo e acaba sendo seduzido e a arte sempre encena rituais em torno do poder, o tempo inteiro, pra longe ou pra perto, mas esta gravitando sempre de uma maneira estranha, curiosa, problemática e tal, então, têm de se disfarçar aquele buraco, quer dizer: não há como assumir aquele buraco, ta ali um ponto interessante nesta estória, o buraco tem de ser disfarçado pelas roupas, disfarçado pela melancia, quando ele aparece, ele não é assumido por este bufão, por este lugar do poder, por quem seja e realmente todo o conto dá pra perceber a dinâmica desta estória toda na fotonovela, quer dizer eu estou chegando ao conto mais pela fotonovela em torno deste furo, e eu gostaria de positivar este furo de alguma maneira, ali que alguma coisa pode acontecer através deste furo, desse corte, desse buraco e é por ai que a gente pode trabalhar uma inversão, um atravessamento qualquer, uma reversão, a perversão passaria por ai, por estes buracos, e é por ali que o poder pode ser desconstruido de alguma maneira, por que por ali que a gente poderia instalar algum tipo de prótese estranho a aquele corpo, a alteridade passaria por ai, algo que se instale ali, que hibridize com aquele corpo, existe ali toda uma gravitação em torno do furo. Quer dizer na fotonovela esse buraco está no rei, no bufão, no lugar do poder como todos já comentaram, e através do Túlio, quer dizer do meu contato com o Túlio, a distancia também, não só através dele, sempre encontrei o Túlio em situações em que ele me trás outras pessoas pra conhecer, pra encontrar, pra conversar ou que seja e quando ele me falou desta idéia do seu “Coletivo de Um Homem Só”, eu achei muito boa esta frase, está ali uma descontração deste lugar do poder, por um trabalho do Nova Pasta e do Zox e ai eu me aproximo dos coletivos a partir do momento em que estes Coletivos estão ai lançados, dentro do ambiente do circuito das artes, pra dentro do circuito , interfaces pra fora do circuito, mas estão ai pra de certa maneira, esta é minha entrada um pouco no mundo dos Coletivos, buscar outras formas de agenciamento dentro do circuito de arte para justamente construir outros núcleos de poder, de afirmação de um poder, de fazer alguma coisa, de poder intervir, de poder produzir alguma outra coisa que não está simplesmente, passivamente, a mercê do poder hegemônico, dos poderes hegemônicos deste circuito, então meu contato com esse Coletivo de Um Homem Só através destas ações incessantes de aglutinar pessoas numa dinâmica muito acelerada, pra de alguma maneira buscar estratégias de afirmar certas práticas de linguagem, certas poéticas, certos percursos, que escapam pelas franjas de um circuito hegemônico e que de uma alguma maneira não deixa de ser uma gravitação em torno de um poder, a gente tem de pensar não mais em um poder centralizado, único, central, que agente vai tomar simplesmente, mas outros poderes nestas franjas que vão aglutinando outros percursos, outros fluxos, então, de alguma maneira esta roupa dos tecelões que se mostra invisível, ela é tão invisível quanto este furo, ela, de certa maneira, pode ser uma estratagema não para ocultar, mas para mostrar cada vez mais ou para produzir de maneira ácida este corte, pra instalar ali estes Dispositivos, Próteses, para outros agenciamentos e o Rei, na verdade, não esta entendendo absolutamente nada como um Bufão qualquer que esta ali comendo chocolate, rindo, olhando as mulheres cheias de volúpia que passam em um quadro ali dentro da fotonovela, projetando e construindo sua imagem socialmente e tal, mas de alguma maneira não esta entendendo nada, no sentido de que ele não tem nenhuma preocupação quanto a isto e este furo um pouco a sua revelia e ele não sabe o que fazer, bota a melancia, coloca uma roupa, é um incomodo, mas é por este furo que de alguma maneira se destrói este lugar e se constrói outro, se atravessa uma superfície pra se chegar em algum outro lugar de certa maneira ou produz uma intervenção que não se tratou de construir um lugar de poder em outro reino e vamos todos praquela comunidade ali e atravessar o monarca como uma estratégia para dissolve-lo de certa maneira e monitora-lo ou abita-lo, contamina-lo de alguma maneira com um dispositivo que é outro em relação a este monarca e que talvez possa tomar conta do corpo inteiro ou gerar outros processos e tal, então a fotonovela fala em linguagem de sátira, humor que é uma estratégia recorrente para minar, para sabotar este lugar do poder sério e hegemônico e esse bufão, esse rei ri, mas meio sem graça, ele não tem uma risada, um riso pleno, mas uma risada sem graça meio sem jeito, enfim há um desconforto ali também e de certa maneira quando a gente esta na galeria, a galeria esta ocupada ali pelos objetos dos tecelões e pelos objetos do rei, de certa maneira ali a estratégia da costura que descostura, da máquina que não costura nada e que revela, que produz esse furo, ta ali de certa maneira encenada, tem os objetos rituais do rei, os adereços que me lembraram que de cera maneira estão construídos ai, dispostos como adereços de carnaval, o cetro , aquela coroa e agora a fotonovela, a atração principal, a narrativa que vai de alguma maneira movimentar estes objetos que estão dentro da galeria, uma das narrativas ou anti-narrativa, ou que seja, mas enfim, a gente é  forçado, neste confronto com estas imagens e com aqueles objetos, a construir algum tipo de conexão com aquelas coisas, produzir algum sentido ali, que nos desloque pelo espaço, é interessante que o fato das imagens que estão voltadas pra rua e agente da galeria olha a fotonovela e não vê nada só vê o lado opaco, e de certa maneira é um anti-vitral  porque a luz atravessa onde não esta este vitral, achei interessante a sugestão, houve um momento em que eu me aproximei do vidro para ver alguma coisas através do vidro ali da avenida paulista, as luzes e eu vi que pra quem estava andando pela rua, eu podia ser uma dos personagens da fotonovela junto daqueles outros, porque o vidro favorece isso, favorece que os visitantes da exposição de alguma maneira sejam incorporados naquela historia, quando a gente chega perto do vidro e fica parado ali, então enfim tem este voltar para fora da galeria, quer dizer; você entra na galeria e vê coisas por traz, de certa maneira também é um furo na galeria,  é um pouco a estratégia de furar né? De buscar, de cortar, atravessar, um lugar para atravessar, há uma inversão do lugar galeria, já foi colocado aqui, quer dizer a gente entra e se sente excluído de algo que ta sendo colocado pra fora e é claro que isso se conecta com diversas destas estratégias de Coletivos de ir pra rua, isso é, enfim diversas movimentações durante o século XX século XI e tal, das mais interessantes, elas o tempo inteiro assumem um confronto contra este lugar da arte como lugar hegemônico, estável, da mesmice, muito submissa a certo poder hegemônico e procura inverte-lo com adjetivações como não arte, anti-arte ou o que seja, e os Coletivos também desempenham este papel quando procuram desmontar este artista que não é o único e tal, e fazem estas ações em busca de outros percursos, em busca de outros segmentos, que podem se relacionar de maneira ou de outra com este lugar da arte, e o Túlio quando cheguei aqui não encontrei, fiquei andando pelo espaço, quando eu consegui chegar aqui no auditório, fui encontrando as pessoas, fui ao banheiro e entrei no auditório, vejo o Túlio sentado aqui, vestido da mesma maneira, caracterizado da mesma maneira que Os Ratinhos e eu já tinha pensado que realmente o Túlio era aqueles ratinhos e esse Coletivo de Um Homem Só me lembrou muito esta colônia destes ratos, de uma estratégia mesmo quase que de um coletivo de animais né? Enfim que pra nosso olhar humano são todos iguais, se agente ver dez ratos não consegue ver diferença, vê um formigueiro e não vê nenhuma diferença nas diversas formigas, castas e tal, mas então, é interessante, seria possível uma outra leitura assim, né? Um passeio que eu fiz com o Túlio rápido ali pela vitrine, ele foi me identificando, cada um dos atores, dos Performers ali e de certa maneira de alguma relação entre os papeis as suas atuações, e enfim esses Siluetizadores me pareceram realmente esta inserção mais intelectual, alguém que não tem um lugar muito claro é de certa maneira está problematizando aquele conjunto da narrativa, é obvia esta leitura, as ligações estão muito claras na fotonovela tanto com a Ligia Clark quanto ao Helio Oiticica né? Na plebe, enfim, na figura feminina, O Lixo Transrelacional, naquelas pedras e tal, esse Parangolé do Parangomonstro, enfim, são referencias que dariam para gente abrir em um outro lugar, e aí eu não tenho tanta proximidade pra falar dos Performers, ai eu já falaria muito de fora, e precisaria assim conversar mais. Bom, esse é meu contato aqui com esse evento, eu achei interessante também é que o evento parece proposto pelo Nova Pasta e pelo Zox como evento coletivo, eu acho que ele tem esse tom mesmo de uma ação coletiva, de produzir de alguma maneira essa corrosão, estes furos e tal e é essa minha contribuição para a conversa.

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por Gania Adams

A roupa nova de rei: relato de uma aproximação

O trabalho na exposição A Roupa Nova do Rei, da Nova Pasta de Túlio Tavares e Zox de Thiago Judas que aconteceu no SESC Paulista , fim de 2005, me intrigou e me fez pensar algumas coisas que trago aqui. O trabalho na exposição

Das muitas coisas que poderia falar, inicio com uma que parte da semelhança formal do trabalho exposto com outras formas de comunicação gráfica, principalmente a do vitral religioso. Depois de pincelar algumas semelhanças, vou tentar avançar alguns elementos..

A forma de apresentação escolhida, que é a da vitrine adesivada, guarda estreita relação com a fotonovela e a historia em quadrinhos, como apontado pelos autores em outras ocasiões [FIGs. 07 e 07a].

Eu queria acrescentar como ponto de partida, porém, um formato que é  uma espécie de predecessor destas duas formas narrativas: o vitral [FIG. 00].

Queria pensar a imagem religiosa ocidental como essencialmente narrativa.

Isto é, toda a imagem religiosa medieval ou renascentista representa uma história da bíblia ou da historia da igreja – por vezes condensado na forma de um único personagem carregado de seus adereços. Particularmente a partir do inicio do movimento da Reforma protestante, uma grande ênfase foi colocada sobre o poder explicativo da imagem. O Barroco pode ser entendido também como um grande movimento multi-mídia de Contra-Reforma. Os clérigos da época eram instados a usar em seus sermões exemplos familiares aos ouvintes, a pintar cenas e situações de maneira vibrante e colorida. E podiam dispor de marcadores visuais de memória  e de ilustração na forma dos vitrais e dos afrescos[FIG. 03].

Da mesma forma, os pintores renascentistas foram mobilizados para trazer as histórias e ensinamentos da bíblia para perto da vida cotidiana dos fiéis. Assim, quanto mais penetrante e realista a representação da cena bíblica, tanto mais eficiente era seu poder de explicação e memorização. E precisamente nesta época que o realismo renascentista, com a perspectiva e tudo mais faz sua aparição na historia da arte.

Há um delicioso desvio aqui em direção ao pênis de Cristo, o santo sudário e Verônica. Não tomaremos este atalho hoje, mas fica a indicação para uma outra ocasião.

Então temos uma situação onde uma espécie de show oficial de multimídia é esboçado, onde o fiel dentro da igreja contempla as imagens cujo encadeamento narrativo é dado pelo sacerdote  pela música etc. A narrativa, portanto, está fora da imagem.

Há uma passagem da historia das imagens muito interessante, pois o mundo hierático e bidimensional medieval começa a receber tratamento espacial tridimensional, como que inflando um balão antes prensado. O herói desta passagem, na narrativa tradicional da história da arte, é o mítico Giotto, que famosamente conduz a passagem da maniera antica, gótica, à maneira moderna, renascentista [FIG. 05].

É de se notar que a introdução do tempo na pintura medieval, operada através da perspectiva, trouxe certas pressões sobre a composição usual de figuras em um só plano, que agora tornaram-se figuras em um espaço. Para nossos olhos, algumas figuras desta época sentam-se ou ficam de pé de maneira desconfortável e forcada. Os grandes harmonizadores da figura desenvolta no seu espaço viriam a trabalhar muitos anos depois.

O afresco religioso evoluiu para usas formas mais barrocas e complexas, em direção a Michelangelo, por exemplo. O formato sintético permaneceu ainda nas primeira publicações impressas, onde a economia de traços e a ausência de cinzas permitiu o domínio do traço e da composição simples de um plano só [FIG. 06],

como em catecismos, histórias de santos, almanaques etc.

De qualquer forma, o que eu quero sublinhar é a obrigatoriedade da familiaridade das composições. Em outras palavras, as cenas, poses tinham que ser convencionais, para que fosses sempre reconhecíveis. Como todas as historias carregam uma lição, uma moral, um ponto edificante, o encadeamento tinha que ser o correto, já que não havia a possibilidade de um fim em aberto ou de interpretações alternativas. O ponto da Contra-Reforma é precisamente tentar retomar para a Igreja o controle do monopólio perdido sobre a Escritura e sua interpretação, a exclusividade da linhagem como instituída pela tradição, isto é, pelo próprio Cristo ressuscitado na figura de São Pedro, o primeiro papa da Igreja – segundo o relato católico.

Um exemplo distante mas ilustrativo da convencionalidade de sinais pode ser encontrado na dança clássica indiana. O Bhrata Natyam, especialmente, é altamente convencional, onde cada gesto está codificado de forma que tanto o dançarino como o espectador informado lançam mão de um vocabulário já estabelecido. Como um ideograma, porém, ouso e encadeamento dos gestos pré-ordenados leva a resignificações: o gesto de colher a flor pode significar o mais abstrato falar, por exemplo [FIG. 08 e 09].

Para suavizar a dureza da comparação dança clássica indiana e a pintura medieval, lembro que parece ter havido certa migração de gestos, através da escultura e retórica, dentro do mundo helênico, que se estendeu em seu máximo do norte da Índia até o oeste europeu (compare FIGs. 09, 10a e 03, por exemplo).

A Roupa Nova do Rei fala de castração; o sangramento do pênis circuncidado de Cristo é sublimado como carne envolta em fogo sagrado; coroa de espinhos como o prepúcio mutilado;

Hipótese 2 [FIG. 11]

A chaga como vazamento sublime; o problema da esposa de Cristo; a penetração como auto-conhecimento;

Hipótese 3 [FIG. 12]

A vagina/ânus como camera obscura; vagina dentata como obturador;

Hipótese 4 [FIG. 14]

A mulher como uma deformação física e moral do homem permanece em formatos modernos (pergunta católica: “o quê fazer com a Mulher?”)

Hipótese 5 [FIG. 15]

A caixa/buraco como vazio a ser preenchido pelo destroçamento;

Hipótese 6 [FIG. 16]

A mutilação como nostalgia do pré-nascimento;

Hipótese 7 [FIG. 17]

A Renascença desenterra pedaços do passado clássico e inventa uma narrativa de uma  época de ouro a partir de fragmentos indiciais; o fascismo do século XX desenterra a juventude destroçada nas trincheiras européias e recupera-a como violência classicizante;

Hipótese 8 [FIG. 20]

O buraco fala de orifício, facilidade e do tubo digestivo; citação de Deleuze iminente;

Hipótese 9 [FIG. 21]

Encontro das formas platônicas clássicas – círculo, quadrado, triângulo – com narrativa sobre o corpo humano dentro de quadro discursivo racista: a medicina foresense organiza o corpo humano em três raças a partir da observação de orifícios.

Hipótese 10 [FIG.23]

O poder colonial encontra na prostituta uma forma de viver inversão da dominação política que exerce na Irlanda do Norte, fantasiando sexualmente sobre seu inimigo sem rosto e clandestino, o IRA.
Hipótese 11 [FIG. 24]

A engenharia genética como mercadoria;

Hipótese 12 [FIG. 25]

Outra combinação de facialidade e orifício urge;

Hipótese 13 [FIG. 41]

Volta aos documentos do início dão pista sobre aproximação possível com a Roupa do Rei;

Hipótese 14 [FIG. 42]

Ponte possível constituída entre meu entendimento e a Roupa Nova do Rei;

FONTES

Breve descrição informal das fontes visuais:

FIG. 00
Detalhe de vitral de catedral de Chartres, na França.

FIG. 03
Detalhe de vitral de catedral de Chartres, na França.

FIG. 05
Retábulo de Giotto sobre episódios da vida de S. Francisco de Assis.

FIG. 06
Narrativa impressa sobre o martírio de personagem da Igreja. Provavelmente séc. XV.

FIGs. 07 e 07a
Fotonovela em português da década de 1960.

FIGs. 08 e 09
Ilustrações de manual de dança clássica indiana.

FIG. 10a
Tradicional representação do Sagrado Coração de Jesus

FIG. 10b
Tradicional representação do Sagrado Coração de Jesus e programa da exposição

FIG. 11
Giotto e programa da exposição

FIG. 12
Detalhe das narrativa impressa do martírio e programa da exposição

FIG. 14
Detalhe de fotonovela em português da década de 1960 e programa da exposição

FIG. 15
Programa da exposição e fotografia de livro de medicina forense americano dos anos 50

FIG. 16
Fotografia de livro de medicina forense americano dos anos 50 e torso grego da escultura clássica.

FIG. 17
Fotografia de mutilado de guerra em página de publicação pacifista alemã do entre-guerras e cabeça grega clássica esculpida.

FIG 20
Máscara brinde dos biscoitos Trakinas

FIG. 21
Página de livro americanos dos anos 50 de medicina forense.

FIG. 23
Fotografia de jornal de orador do IRA em funeral e um cartão de prostituta recolhido em cabine telefônica em Londres perto do centro administrativo governamental.

FIG. 24
Encarte em revista de beleza brasileira de 2004.

FIG. 25
Fotografia de livro americanos dos anos 50 sobre medicina forense.

FIG. 41
Programa da exposição e detalhe da narrativa impressa sobre o martírio de personagem da Igreja.

FIG. 42
Programa da exposição e colagem de Gavin Adams.

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Intervenção de Fabiane Borges e Rafael Adaime, na exposição A roupa nova do Rei; de Nova Pasta e ZOX

26 de outubro de 2005

Rafael adaime

1.  começemos com a roupa nova do rei do andersen. a primeira sensação: onde estão as janelas dessa história? a impressão de não haver janelas… e hoje é de janelas, ou de  vitrines, que se trata. …como na maioria das histórias infantis, nessa também há predominio da moral… impossibilidades de fugir pelas beiradas do texto… tudo começa pela descrição do rei… “adorava ter as mais belas e finas roupas. ele gastava a maior parte de seu tempo e dinheiro comprando maravilhosas vestimentas!”  Uma espécie de arapuca moral que incomoda o desejo por multiplicidade, pois é o próprio autor que escolhe previamente como deveremos interpretar a história… ele continua: “o imperador não estava muito interessado em governar o seu país…” …ele tem uma tara, um vício, uma incontrolável e vigorosa vontade de usar roupas bem transadas… o que pensar sobre isso? Podemos ser radicais e dizer: há mal pois trata-se de um rei, ponto final, pois rei é sempre mal, assim como o capitalista, o papa, o fascista, etc… fica explícito que o autor quer destituir qualquer possibilidade de simpatizarmos com o soberano, criando um texto semelhante aos modos políticos que ele próprio pretende criticar… um texto fechado, sem janelas, sem saídas, semelhante a qualquer império bem administrado… algo de maquiavélico no dominio da arte

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6.                                 2. Aí aparecem os (falsos) tecelões, apresentados da seguinte forma: “um dia, dois vigaristas… decidem tirar uma certa vantagem sobre o Rei”  …executarão a vingança coletiva… darão uma lição no vaidoso e incompetente monarca… assim quer o autor. Vamos abrir janelas para evitar interpretações eternizantes… esse Rei não parece ser a personificação do mal por gostar de roupas e não de polítca; inclusive não gostar de governar pode ser uma virtude em outra perspectiva… mas ele também não é um anarquista coroado, como fora Heliogábalo que ao chegar em Roma sobre sua carruagem ornada com um enorme falo dourado de dez toneladas, puxado por 300 touros enfurecidos,  acompanhado por um cortejo de pederastas, atores, dançarinas… Heliogábalo, o rei humano e o rei solar, homem e mulher, coroado em Roma expulsa os homens do Senado e os substitui por mulheres, proclama a anarquia, o teatro e a poesia; promove um dançarino a chefe da guarda Romana… Heliogábalo-imperador comporta-se como um vagabundo e um libertino irreverente. Na primeira reunião mais solene pergunta aos nobres, senadores e legisladores de toda ordem se também haviam conhecido a pederastia na juventude, se haviam praticado a sodomia, o vampirismo, a fornicação com animais… é evidente que no rei de anderson não há nada que o assemelhe a heliogábalo, mas ao menos, temos aí o exemplo de uma outra figura de Rei… e haveriam muitas outras que nos levariam a deixar de lado nossas tendências a identificação de classes   representativas… essa mudança de perspectiva nos ajuda a deixar de lado maniqueímos reducionistas… agora com uma janela arrombada podemos dar uma olhada nas forças que estão em jogo no campo de batalhas dessa historinha… A vida como luta de força só se dá em contato… O que há entre o rei e os tecelões, independentemente da adjetivação determinista do autor – espírito ressentido e de vingança – ;é a ação de uma potência falsária da arte, mesmo que como blefe, como o palhaço que agencia, contamina e cria o desejo de experimentação da diferença (o tecido estrangeiro) possibilitando ao rei deasmanchar seus velhos territórios e tornar-se, mesmo que por instantes, um outro até então desconhecido… o rei nu

7.                                 3. os tecelões como falsários porque em seus corpos agem forças que acabam permitindo ao rei experimentar sua nudez em publico. não sabemos o que acontece ao rei depois da criança anunciar sua nudez; inclusive a criança não interpreta a situação, só anuncia… o testemunho que opõe uma verdade sem poder a um poder sem verdade…   e o rei segue caminhando, fingindo não ter acontecido nada. depois não se sabe, a história acaba. Essa potencia do falso, comum a arte, as drogas, ao amor, como fluxos que desmancham certezas e segurança também está visível  na vitrine da paulista… a começar pela narração que deixa de ser verídica, deixa de aspirar à verdade e a uma moral da história para se fazer especialmente falsificante, ou seja, a narração inteira está sempre se modificando a cada uma das janelas, a cada encontro com cada foto, com cada fala ou narração, com um ou outro personagem… segundo lugares desconectados e momentos descronologizados, da esquerda pra direita, de cima para baixo… você é convidado a começar pelos tecelões, mas não é obrigado…uma duas tres janelas se abrem, seis sete ou oito dimensões…

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37.                             4. a fome-buraco, o buraco-porosidade-atravessamento no estômago… o rato roeu a barriga do rei e lhe fez um favor… abertura de contato com o mundo exterior, o mundo que o peso da coroa-cetro não lhe deixava sentir intensamente… o rei já é outro, e será outro ainda na próxima vez que o vermos, da próxima foto eternizadora apenas do instante. o buraco do rei, o vazio como a fenda de contato direto do corpo com o mundo, o arregaçamento das entranhas… o buraco aberto à coice, aos gritos de um parangomonstro-cavalo que evidencia o que já era fato… o rei mal nascido!  Reinventado e colado na janela-limite com as passagens da rua… a tampa-melancia como elemento vegetal-natural que funciona como a comporta de uma represa que deixa entrar vida nova quando dela se precisa, que barra o objeto venenoso para manter a organicidade intacta… porosidade e interioridade escancarada… o rei está nu – o almoço nu… quando vemos claramente o que temos na ponta de nossos garfos. Mas isso é só uma possibilidade, pois nenhuma abertura garante saúde e potência afirmativa da vida… uma abertura também pode exigir o complemento externo de um Deus-melancia-tapa-buraco. O rei mal nascido, atacado por todos os lados na desconexão discursiva…

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65.                             5. Já nos deslocamos para outro platô… do texto fechado, sem janelas de Andersen à fotonovela construída por recortes justapostos e sobrepostos que trunca qualquer liberdade analítica, discursiva e ajuizante. Se do rei não sabemos o que poderá acontecer pala ação dos intercessores costureiros, de nós sabemos muito menos. O que dizer de uma vitrine que a cada olhada foge ela própria de uma interpretação eternizante, como deseja o ministro? A obra que foge e nos faz fugir com ela… Como a diferença entre a narrativa em Homero-Ulisses que viaja viaja e encontra um pódio qualquer e sua namorada e a corrida marítima de Ahab atraz da baleia Moby Dick, que é todas as baleias, que é sua saudade do infinito, sua linha de experiência espichada aos limites da vida e da morte… a baleia que foge e faz fugir a razão do capitão… assim como essa vitrine um tanto dissimulada, que nos apresenta um mundo infinito com infinitas saídas… não importam as entradas desde que tenhamos multiplas saídas… esse desejo que atravessa a narrativa em inúmeros pontos de conexão… como no silhuetizador… a reinvenção do rosto que concentra o foco, imita a ave; o furo-olho-buraco de ave que deixa passar algo e logo se desfragmenta ao infinito curvando o corpo-espasmo do homem que se funde com a paisagem… ao mesmo tempo o jato negro  jorra da cabeça e a transparência vidro-mundo jorra em direção ao rosto… desterritorialização.

Fabiane borges

1- …uma história moralista, unilateral que impõe fixos valores ao leitor sem dar espaço para outras possibilidades. Andersen cria um rei burro, vaidoso, egocêntrico, que não quer saber de governar, e sim quer somente tratar seu guarda-roupa real. Também me sinto tentada a penetrar nas complexas tramas subjetivas do rei. A fatalidade de uma vida destinada ao poder imperial que não para de sonhar em ser artista, estilista e lançar moda. Não teria o rei um desejo inconfesso de ficar nú perante seu povo?  Um povo que o empodera e o persegue ao mesmo tempo…  que lhe espia até o fino peido, e cochicha seus gestos nem sequer executados. O povo que lhe legitima o poder e também lhe aprisiona. Sim, sim, sim… O desejo de nudez do rei em conexão com a malandragem dos vigaristas… Conexão ativa entre o desejo de nudez do rei e ação falsária dos dois bufões. O rei como figura de poder real e os vigaristas como figuras de interferência no poder real se conectam em uma vontade de nudez da realeza. Ambos sofrem o peso da condição da representatividade: um enquanto herdeiro de um destino que lhe outorga autoridade, outros como iconoclastas que vivem nos interstícios do suposto super controle do império. O autor não dá conta dessas complexidades. Prefere induzir a história a um hegelianismo exagerado, onde os personagens tem papéis definidos e os vigaristas são vistos como forças de um fora-do-reino, completamente desconectados. Uma historinha infantil banal como a maioria.

2 – Pensar o rei como um palhaço é libertador na medida em que liberta a figura aprisionante do rei e do palhaço. Quem já botou o nariz de palhaço na alma sabe bem do que se trata. A ingenuidade e inocência que se atribui ao palhaço não condiz com sua natureza múltipla. O palhaço pode ser bem mau e atuar com as forças do mais profundo desespero. Os clowns negros como se chama por aí. O palhacinho da alegria insossa não passa de mais uma das imagens a ele atribuida, assim como a do rei poderoso também é fragmento imagético. O palhaço assassino, o rei idiota, o palhaço no palácio. Essa analogia começa fazer sentido, quando pensamos no nariz do palhaço e na coroa do rei como representações impostas por forças que estão além deles, que se constituem como fenômenos advindos de uma multidão conivente e desejosa, ou seja, a vontade de poder existente na cultura, na memória, na tradição estruturalista perpetua a coroa do rei. Desse ponto de vista é possível compreender a coroa do rei, do governador, do papa, do pastor, do pai de família como a explicitação de um desejo investido por tudo o que não é rei, ou seja, o artesão, o sem teto, o que vota, que elege, que outorga ou que toma o poder. Eles-nós estamos por aí nas vitrines, nas calçadas, nas passeatas. Claro, a própria exposição já fala desse rei aflito, quando lhe coloca um nariz de palhaço na barriga. Um nariz melancia. Que tenta tapar o buraco do estômago que dói tanto quanto a fome. A fome-buraco do rei.

3 –  Existe tanto na vitrine como na história de Andersen, uma certa marginalidade idealizada… Transcendente…  que assume papéis definidos no mundo: os pobres miseráveis – que como diz Toni negri – são os possíveis inimigos do império – gente que pode enfrentar o império devido sua nudez real – vidas nuas – vidas sem inscrição nas esferas jurídicas, econômicas e ministeriais, que podem afrontar as forças imperiais pela violência que a sub-existencia promove. Esse é o pensamento manifesto nas ações coniventes com o império. Que os pobres, por não terem nada a perder, podem lançar-se, a qualquer momento em uma louca guerra contra o império com a única força que possuem que é a própria vida. e por isso os cinturões assistenciais, de ongs políticas e religiosas que protegem o império pelo controle moral. Também existe em ambos trabalhos uma espécie de romântica elegia aos artistas da fome… Que em nome do inaudito arriscam-se a renunciar suas próprias inscrições e aconchavos, em nome de um purismo da obra, em nome de um inominável qualquer. Em nome do traço não aceito na exposição convencional da galeria. O marginal como purificação da existência do homem sobre o planeta terra. A marginalidade é signo inscrito no horizonte do desejo e ele se perpetua enquanto força e enquanto forma… E aí chego numa questão cara pra Foucault, que pensa o poder como um campo de batalha das forças e das formas… Um campo de batalha incessante que podemos exemplificar através da exposição dos personagens na vitrine. O rei-poder em nós, os bufões em nós, a melancia no fígado, a miséria emporcalhada das latas de lixos e do pensamento, os medos de ser burro dos ministros e dos rebeldes, as vontades de eternizações do fotógrafo-mídico-histórico, a plebe em nós, os ratos que somos que roem o mundo e que nos roem ao mesmo tempo, a coroa, o sesc financiador, o chocolate… Essas forças matéricas todas que nos atravessam e nos subjetivam e nos tornam o próprio campo de batalha… O trabalho e a vontade de feriado no fígado nosso que filtra, retém e expele elementos demasiados todos os dias.

4: E a pobreza… Aqueles sacos pretos todos, as lonas os carrinhos de papelão atados na cintura, os que mal podem expressar-se… Os emplastificados, destituídos de poder, que ao menor intervalo do sufoco exige em gritos de passeatas a coerencia do rei, a organização institucional e a definição de sentidos. A figura do povo e do gari na vitrine da paulista explicita uma condição de existencia muito comum: a da tentativa de organização dos fracos, que muitas vezes não conseguem produzir saída a não ser pela repetição idiossincrática das estruturas dadas. Uma saudade ínfima de um infinito obscuro. O movimento dos sem… Sem terra, sem casa, sem universidade, sem mecenas, sem alimentação, sem empresa… O sem se organizam em torno da falta, uma falta que está na fome da plebe e no estômago do rei. Esses Sem que atrevem-se a inscreverem-se feito tatuagem nas galerias abertas da cidade. Mesmo que não tenham acesso às vitrines, eles inscrevem-se nas calçadas. Mas não há olhos para ver, ouvidos para ouvir. Será que há concatenação possível entre o urro emitido pelas hordas emplastificadas do Taboão da Serra, da Plínio ramos e esse trabalho exposto pra calçada da galeria? Seria possível pensar  numa relação possível entre esse surrealismo louco da vitrine e o surrealismo louco expostos e expulsos das calçadas? Não há também um certo surrealismo confuso quando presenciamos a performance da mulher de rua que carrega seus dois filhos nos braços e é interpelada pela carrocinha-que-recolhe-crianças-vira-latas? Eu vi. Tiraram-lhe os dois filhos dos braços e os levaram para as gaiolas-infantis-assistenciais – luta perdida de mulher perdida – ela riscou o peito com a unha encravada, urrou na rua desvairada e delinqüente mostrando aos passantes suas tetas encravadas de leite, esguichou-as na garrafa de coca-cola. Deixou de ser ereta, virou ela própria um buraco na rua, desprovida de qualquer direito constitucional…  Bebeu seu próprio leite-coca-cola, de quatro, cadela, tetrapódica, coçando as sarnas das pernas com os dentes careados. Ela é o contra-corpo do soberano. Sub-existe debaixo das cascas da melancia do rei. São Imagens-mutiladas… Revides-expostos nas galerias da rua.

5- Não posso deixar de fazer uma intima associação entre as ações dos tecelões falsários e os coletivos de intervenção pública que manifestam um desejo irrestrito de desnudar o poder e viver de feriado. O cavalo deitado na vitrina explicita bem essa idéia… Uma espécie de não ação como resistência ao mundo do trabalho. Uma forma de expropriação financeira baseada na interferência do não gesto, do não produto, da contra-ação. Uma pequeníssima demonstração de um desejo ontológico de descansar dessa ascendência toda, dessa evolução tecnológica escravizante, dessa implacável tarefa de desenvolvimento que o humano se colocou… Uma paralisia resistente., Uma greve humana qualquer. Um corpo animalizado que de alguma forma sobrevive de interstícios, de uma estranha esmola escamoteada. Uma tomada do espaço público da cidade que nos remete a um passado incerto e a um futuro incerto, mas que se presentifica nos planos da contemporaneidade enquanto gesto.

… a exposição na vitrine se manifesta enquanto gesto ínfimo e eloquente. Que talvez não tenha força o suficiente para inscrever-se nos circuitos obtusos da arte contemporânea, mas que possibilita um certo respiro, como se fosse um pequeno carnaval  que acontece aquem das grandes produções das escolas de samba. É um gesto simples, mas que como todo o gesto, carrega em si dimensões demasiadas.

1 Comentário »

  1. Teu trabalho está lindo, como sempre!
    Só posso dizer que me sinto feliz em ter conhecido
    MENOSSÃO e VC!

    Beijos

    Juny

    Comentário por Juny Kraiczyk — agosto 5, 2008 @ 12:26 am


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