exposição A Roupa Nova do Rei por Gavin Adams

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Segue o texto reflexivo sobre a exposição escrito por Gania Adams

 

 

A roupa nova de rei: relato de uma aproximação

O trabalho na exposição A Roupa Nova do Rei, da Nova Pasta de Túlio Tavares e Zox de Thiago Judas que aconteceu no SESC Paulista , fim de 2005, me intrigou e me fez pensar algumas coisas que trago aqui. O trabalho na exposição

Das muitas coisas que poderia falar, inicio com uma que parte da semelhança formal do trabalho exposto com outras formas de comunicação gráfica, principalmente a do vitral religioso. Depois de pincelar algumas semelhanças, vou tentar avançar alguns elementos..

A forma de apresentação escolhida, que é a da vitrine adesivada, guarda estreita relação com a fotonovela e a historia em quadrinhos, como apontado pelos autores em outras ocasiões [FIGs. 07 e 07a].

Eu queria acrescentar como ponto de partida, porém, um formato que é  uma espécie de predecessor destas duas formas narrativas: o vitral [FIG. 00].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Queria pensar a imagem religiosa ocidental como essencialmente narrativa.

Isto é, toda a imagem religiosa medieval ou renascentista representa uma história da bíblia ou da historia da igreja – por vezes condensado na forma de um único personagem carregado de seus adereços. Particularmente a partir do inicio do movimento da Reforma protestante, uma grande ênfase foi colocada sobre o poder explicativo da imagem. O Barroco pode ser entendido também como um grande movimento multi-mídia de Contra-Reforma. Os clérigos da época eram instados a usar em seus sermões exemplos familiares aos ouvintes, a pintar cenas e situações de maneira vibrante e colorida. E podiam dispor de marcadores visuais de memória  e de ilustração na forma dos vitrais e dos afrescos[FIG. 03].

Da mesma forma, os pintores renascentistas foram mobilizados para trazer as histórias e ensinamentos da bíblia para perto da vida cotidiana dos fiéis. Assim, quanto mais penetrante e realista a representação da cena bíblica, tanto mais eficiente era seu poder de explicação e memorização. E precisamente nesta época que o realismo renascentista, com a perspectiva e tudo mais faz sua aparição na historia da arte.

Há um delicioso desvio aqui em direção ao pênis de Cristo, o santo sudário e Verônica. Não tomaremos este atalho hoje, mas fica a indicação para uma outra ocasião.

Então temos uma situação onde uma espécie de show oficial de multimídia é esboçado, onde o fiel dentro da igreja contempla as imagens cujo encadeamento narrativo é dado pelo sacerdote  pela música etc. A narrativa, portanto, está fora da imagem.

Há uma passagem da historia das imagens muito interessante, pois o mundo hierático e bidimensional medieval começa a receber tratamento espacial tridimensional, como que inflando um balão antes prensado. O herói desta passagem, na narrativa tradicional da história da arte, é o mítico Giotto, que famosamente conduz a passagem da maniera antica, gótica, à maneira moderna, renascentista [FIG. 05].

É de se notar que a introdução do tempo na pintura medieval, operada através da perspectiva, trouxe certas pressões sobre a composição usual de figuras em um só plano, que agora tornaram-se figuras em um espaço. Para nossos olhos, algumas figuras desta época sentam-se ou ficam de pé de maneira desconfortável e forcada. Os grandes harmonizadores da figura desenvolta no seu espaço viriam a trabalhar muitos anos depois.

O afresco religioso evoluiu para usas formas mais barrocas e complexas, em direção a Michelangelo, por exemplo. O formato sintético permaneceu ainda nas primeira publicações impressas, onde a economia de traços e a ausência de cinzas permitiu o domínio do traço e da composição simples de um plano só [FIG. 06],

como em catecismos, histórias de santos, almanaques etc.

De qualquer forma, o que eu quero sublinhar é a obrigatoriedade da familiaridade das composições. Em outras palavras, as cenas, poses tinham que ser convencionais, para que fosses sempre reconhecíveis. Como todas as historias carregam uma lição, uma moral, um ponto edificante, o encadeamento tinha que ser o correto, já que não havia a possibilidade de um fim em aberto ou de interpretações alternativas. O ponto da Contra-Reforma é precisamente tentar retomar para a Igreja o controle do monopólio perdido sobre a Escritura e sua interpretação, a exclusividade da linhagem como instituída pela tradição, isto é, pelo próprio Cristo ressuscitado na figura de São Pedro, o primeiro papa da Igreja – segundo o relato católico.

Um exemplo distante mas ilustrativo da convencionalidade de sinais pode ser encontrado na dança clássica indiana. O Bhrata Natyam, especialmente, é altamente convencional, onde cada gesto está codificado de forma que tanto o dançarino como o espectador informado lançam mão de um vocabulário já estabelecido. Como um ideograma, porém, ouso e encadeamento dos gestos pré-ordenados leva a resignificações: o gesto de colher a flor pode significar o mais abstrato falar, por exemplo [FIG. 08 e 09].

Para suavizar a dureza da comparação dança clássica indiana e a pintura medieval, lembro que parece ter havido certa migração de gestos, através da escultura e retórica, dentro do mundo helênico, que se estendeu em seu máximo do norte da Índia até o oeste europeu (compare FIGs. 09, 10a e 03, por exemplo).

 

A Roupa Nova do Rei fala de castração; o sangramento do pênis circuncidado de Cristo é sublimado como carne envolta em fogo sagrado; coroa de espinhos como o prepúcio mutilado;

Hipótese 2 [FIG. 11]

A chaga como vazamento sublime; o problema da esposa de Cristo; a penetração como auto-conhecimento;

Hipótese 3 [FIG. 12]

A vagina/ânus como camera obscura; vagina dentata como obturador;

Hipótese 4 [FIG. 14]

A mulher como uma deformação física e moral do homem permanece em formatos modernos (pergunta católica: “o quê fazer com a Mulher?”)

Hipótese 5 [FIG. 15]

A caixa/buraco como vazio a ser preenchido pelo destroçamento;

Hipótese 6 [FIG. 16]

A mutilação como nostalgia do pré-nascimento;

Hipótese 7 [FIG. 17]

A Renascença desenterra pedaços do passado clássico e inventa uma narrativa de uma  época de ouro a partir de fragmentos indiciais; o fascismo do século XX desenterra a juventude destroçada nas trincheiras européias e recupera-a como violência classicizante;

Hipótese 8 [FIG. 20]

O buraco fala de orifício, facilidade e do tubo digestivo; citação de Deleuze iminente;

Hipótese 9 [FIG. 21]

Encontro das formas platônicas clássicas – círculo, quadrado, triângulo – com narrativa sobre o corpo humano dentro de quadro discursivo racista: a medicina foresense organiza o corpo humano em três raças a partir da observação de orifícios.

Hipótese 10 [FIG.23]

O poder colonial encontra na prostituta uma forma de viver inversão da dominação política que exerce na Irlanda do Norte, fantasiando sexualmente sobre seu inimigo sem rosto e clandestino, o IRA.
Hipótese 11 [FIG. 24]

A engenharia genética como mercadoria;

Hipótese 12 [FIG. 25]

Outra combinação de facialidade e orifício urge;

Hipótese 13 [FIG. 41]

Volta aos documentos do início dão pista sobre aproximação possível com a Roupa do Rei;

Hipótese 14 [FIG. 42]

Ponte possível constituída entre meu entendimento e a Roupa Nova do Rei;

 

FONTES

Breve descrição informal das fontes visuais:

FIG. 00
Detalhe de vitral de catedral de Chartres, na França.

FIG. 03
Detalhe de vitral de catedral de Chartres, na França.

FIG. 05
Retábulo de Giotto sobre episódios da vida de S. Francisco de Assis.

FIG. 06
Narrativa impressa sobre o martírio de personagem da Igreja. Provavelmente séc. XV.

FIGs. 07 e 07a
Fotonovela em português da década de 1960.

FIGs. 08 e 09
Ilustrações de manual de dança clássica indiana.

FIG. 10a
Tradicional representação do Sagrado Coração de Jesus

FIG. 10b
Tradicional representação do Sagrado Coração de Jesus e programa da exposição

FIG. 11
Giotto e programa da exposição

FIG. 12
Detalhe das narrativa impressa do martírio e programa da exposição

FIG. 14
Detalhe de fotonovela em português da década de 1960 e programa da exposição

FIG. 15
Programa da exposição e fotografia de livro de medicina forense americano dos anos 50

FIG. 16
Fotografia de livro de medicina forense americano dos anos 50 e torso grego da escultura clássica.

FIG. 17
Fotografia de mutilado de guerra em página de publicação pacifista alemã do entre-guerras e cabeça grega clássica esculpida.

FIG 20
Máscara brinde dos biscoitos Trakinas

FIG. 21
Página de livro americanos dos anos 50 de medicina forense.

FIG. 23
Fotografia de jornal de orador do IRA em funeral e um cartão de prostituta recolhido em cabine telefônica em Londres perto do centro administrativo governamental.

FIG. 24
Encarte em revista de beleza brasileira de 2004.

FIG. 25
Fotografia de livro americanos dos anos 50 sobre medicina forense.

FIG. 41
Programa da exposição e detalhe da narrativa impressa sobre o martírio de personagem da Igreja.

FIG. 42
Programa da exposição e colagem de Gavin Adams.

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Clique Clique sobre a imagem e visite virtualmente a exposição, quando a janela seguinte abrir clique novamente sobre ela, siga na horizontal da mesma forma que estava na Avenida Paulista nas vidraças do SESC ou siga na vertical e veja a exposição dividida por cenas.

Nova Pasta e ZOX

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